Era uma vez um menino que brincava na rua com outros amigos jogando ao berlinde, ao pião e fazendo carros com as canas do canavial, junto ao rio, e com os restos de arame das cercas que serviam para fazer as rodas, o veio de transmissão e o volante.

O som dos pássaros do campo e dos trabalhos na horta com as mulas puxando a charrua e lavrando fundos sulcos na terra castanho escura plena de vitalidade depois das cheias do último inverno, o tagarelar das mães no lavadouro comunitário batendo com a roupa na pedra ao mesmo tempo que falavam da vida das outras, e das suas também, virando a cara de vez em quando para se certificarem de que tudo estava bem com os miúdos nas suas brincadeiras sem descanso, transmitia paz e segurança.

Quando passava um carro na rua, tudo parava em contemplação, era quase como que um evento inolvidável, uma admiração espiritual de algo que todos consideravam impossível de alcançar.

O sonho deste menino era ter uma bicicleta. Havia muito poucas na aldeia onde vivia. Imaginava o que poderia fazer com essa bicicleta e só de pensar nisso enchia-se de satisfação e prazer – chegar mais depressa aonde quisesse, sentir o vento fresco batendo na cara, andar pela rua de terra até ao rio para ver os sapos e as rãs e os peixinhos nos charcos.

Um dia, o pai chamou-o com urgência. Era já Verão e o calor intenso que se fazia sentir mantinha as telhas de argila do barracão tão quentes que nem se podia ficar à sombra das mesmas.

Assustado, pois podia ter feito algo de errado – às vezes não conseguia compreender os adultos pois parecia que se irritavam por coisas sem sentido, parecia que não entendiam as crianças e que gostavam que elas não fossem felizes. Seguiu o pai em passo apressado como ele costumava andar, e viu, espantado, uma bicicleta novinha em folha escostada ao muro do pátio onde viviam. A mãe seguia atrás de si e ria-se com satisfação.

Pulava de contente! Nem queria acreditar! O pai decidira comprar-lhe uma bicileta como reconhecimento por ter conseguido passar a 4ª classe. Agarrou-a, beijou-a, acariciou-a enquanto o pai segurava no volante, corria à volta dela sem parar, tão grande era a felicidade.

Já não sabia mais o que fazer. Queria andar na bicicleta o mais rápido possível e o pai dissera-lhe que só no fim-de-semana é que iria com ele para que aprendesse a andar. Só faltavam dois dias mas parecia uma eternidade. Era preciso saber esperar. De que lhe valeria angustiar-se e estar sempre a perguntar as horas na esperança de que passassem mais depressa? Tinha uma bicicleta, algo que considerava inalcançavel mas que se tornou realidade. Era preciso saber sonhar, mas, na verdade, se não se tivesse aplicado e ultrapassado o desafio de terminar a 4ª classe, provavelmente o sonho nunca se realizaria. Agora era preciso saber esperar por aquele dia inolvidável que iria ter.

Aprendeu que há tempo para tudo e que sonhar, trabalhar, saber esperar, brincar e divertir-se com os amigos faz parte do mundo que nos rodeia, sendo que é preciso saber aceitar o que nos acontece sem medos nem frustações, encarando sempre o lado positivo e disfrutando cada momento vida com imenso prazer e alegria.

Pai e filho a andar de bicicleta